palavras e mais palavras

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Um dia Filarmónico...


«É Domingo, mas acordas cedo. Estás de férias, mas acordas mais cedo que nos dias de escola ou de trabalho. Todos os outros dormem. São 6h e à tua espera está uma farda e um estojo.

Em poucos minutos, como por magia já estás à porta de casa, fardado e com o estojo ao ombro. Chega a boleia, ou o autocarro.

És embalado pelo motor. Os óculos de sol disfarçam as olheiras, ouves uma ou outra conversa. Ainda é muito cedo. Não há grande coisa a dizer. Um ou outro comentário ao jogo de ontem, o lamento por estares a tocar à hora do jogo de hoje… “Dá para ver a primeira parte durante o jantar. Ouvimos o relato depois.”

O autocarro abranda. Lá fora, vultos de fato, visivelmente pouco habituados à indumentária. Crachá ao peito. São os festeiros. O autocarro pára: “Pessoal, montem os instrumentos que a entrada é aqui. Vamos em casaco, porque ainda está fresco.”

“Está fresco, o caraças! Vamos andar quilómetros e a meio da primeira marcha já estou todo suado…”

“Afinal vamos de camisa, porque a entrada ainda vai ser grande…”
Praguejas. É demasiado cedo, mas o instrumento já está montado, o chapéu na cabeça. As marchas?

“Nunca encontro o raio da caderneta.”

Outro autocarro. Rostos curiosos espreitam. É a outra banda. Trocas um sorriso, um aceno, um “’tá tudo?” com um conhecido do conservatório, de um estágio passado, ou dos “gansos”. Do outro lado a mesma azáfama. Apertam-se gravatas, abrem-se e fecham-se estojos, ouvem-se as primeiras notas.

“Vamos formar!” e, quando te apercebes, já estás a dar a volta à capelinha. Os festeiros alinham-se solenemente em frente à porta do templo. Nada disfarça o seu desconforto dentro do fato comprado propositadamente para a ocasião, ou para o casamento da prima.

“Vamos para o coreto e esperamos lá pela outra banda!”

Cumpridas as cortesias filarmónicas vem o trabalho a sério. Concerto toda a manhã, a procissão é de tarde. Finalmente despertas. Agora é que vai começar.
Meia dúzia de entusiastas já se perfila em frente aos coretos para o primeiro “round”.

O tempo passa até à hora de almoço. O sol já esquenta e aproveitas para aliviar a gravata. Juntas a malta porreira e procuras um tasco. A cerveja adorna as mesas, repletas de sorrisos, anedotas, graçolas e piropos às miúdas.

“Eix… temos mesmo que ir de novo?”. Tens. O estômago cheio pede uma sesta, mas tens que voltar… Com um bocado de sorte adormeces debruçado nos tímpanos, mas é uma sesta curta para aliviar o espírito. Vem aí a procissão e outro concerto.

No solene desfile religioso é difícil manter a concentração, tais são as tentações lançadas por Satanás, para perturbar o culto Divino.

Tens um código secreto com os companheiros das filas da frente e de trás para assinalar as presenças pecaminosas.

O calor está no seu pico e a sede também. Terminado cortejo, corres para qualquer sítio onde haja um líquido que te acalme a garganta. O pessoal da outra banda também lá está. “Olha o Quim! Ainda não te tinha visto hoje, pá! Como é que andas?”

A cortesia filarmónica continua. Tu pagas uma rodada, alguém paga a ti. O confronto fica guardado para cima do coreto.

“Meia-hora para lanchar e depois estamos aqui no palco para tocar até à hora de jantar.”

A meia-hora ainda dá para uma “suecada”, ou para descarregar a fúria numa mesa de matrecos.

Hora de jantar. Guardas a gravata no estojo e voltas ao tasco do almoço, onde o dono até já está à tua espera, com aquela garrafa que te prometeu.

A molenguisse do almoço dá lugar ao entusiasmo. O concerto da noite é sempre o mais espectacular. 

Não tens o sol a fustigar-te. Até está calor, mas respira-se melhor. Até corre uma certa brisa que leva alguém a pedir que se toque em casaco.

Pelas ruas ornamentadas com luzes, desfilam fardas, estojos e transeuntes ansiosos pelo despique final. Ouve-se no coreto o puto que entrou este ano para a banda e não larga o instrumento, o percussionista a ensaiar brakes na bateria e o “artista” a exibir os exercícios de flexibilidade que aprendeu na marterclass com o “não-sei-das-quantas”. Está também a miúda que estuda desalmadamente para entrar em medicina.

O maestro levanta os braços e sentes que está na hora de dar tudo por tudo. 
Não te dói nada, ou melhor, dói, mas o emblema que tens na lapela fala mais alto. O mundo não vai acabar, mas até podia. A suspensão final parecia interminável, mas não há melhor bálsamo do que as palmas. 

Agora são os outros. Tocam muito bem, o que te dá mais “pica” para a obra seguinte. O resto do corpo pede descanso, mas o teu coração empurra-te para a frente. Ardem-te os lábios, os braços, as pernas, mas o Maestro pede mais e tu tens que dar.

Chega o fim. “A marcha lá fora vai ser o Trivial. Depois tocamos em conjunto o “Manuel Joaquim de Almeida”.

Agora sim, começas a aterrar, mas há ainda o último afago do público. 

Enquanto estouram os últimos foguetes, despedes-te dos colegas da outra banda. Gravatas na mão, estojos ao ombro, uma bifana para o caminho, ar cansado e apressado… “Ganseiro.. não tocas nada, pá!” E trocam um abraço sincero. “Vais ao estágio?”, “Continuas no Conservatório este ano?”, “Onde vais tocar para a semana?”, “Outro dia estive com o Zé, perguntou por ti!”.

O mundo da música é assim, pequenino e andamos sempre aos encontrões uns aos outros.

Chega a hora de atirar o instrumento para a mala do autocarro. Não queres saber. Nos primeiros minutos da viagem, ainda acontece a descarga da adrenalina. Cânticos mais ou menos obscenos, gargalhadas, a praxe aos putos mais novos.
Aos poucos tudo adormece e, como por magia, dás por ti de novo na tua cama, a farda no chão e o estojo à espera de nova jornada filarmónica.»


E é isto! :) Palavras para quê? Quem corre por gosto não cansa, já diz o ditado. E frequentar uma banda filarmónica, mesmo com todos os senãos e contras, é, sem dúvida nenhuma, algo que me faz extremamente feliz. Mesmo muito feliz. De ficar com o coração aos pulos de tanta adrenalina misturada com alegria e satisfação. 

Sinto-me dia após dia orgulhosa da "minha" banda e esforço-me bastante por dar o meu melhor contributo para sermos cada vez melhores =)


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