«É Domingo, mas acordas cedo. Estás de férias, mas acordas mais cedo que nos dias de escola ou de trabalho. Todos os outros dormem. São 6h e à tua espera está uma farda e um estojo.
Em poucos minutos, como por magia já estás à porta de casa, fardado e com o estojo ao ombro. Chega a boleia, ou o autocarro.
És embalado pelo motor. Os óculos de sol disfarçam as olheiras, ouves uma ou outra conversa. Ainda é muito cedo. Não há grande coisa a dizer. Um ou outro comentário ao jogo de ontem, o lamento por estares a tocar à hora do jogo de hoje… “Dá para ver a primeira parte durante o jantar. Ouvimos o relato depois.”
O autocarro abranda. Lá fora, vultos de fato, visivelmente pouco habituados à indumentária. Crachá ao peito. São os festeiros. O autocarro pára: “Pessoal, montem os instrumentos que a entrada é aqui. Vamos em casaco, porque ainda está fresco.”
“Está fresco, o caraças! Vamos andar quilómetros e a meio da primeira marcha já estou todo suado…”
“Afinal vamos de camisa, porque a entrada ainda vai ser grande…”
Praguejas. É demasiado cedo, mas o instrumento já está montado, o chapéu na cabeça. As marchas?
“Nunca encontro o raio da caderneta.”
Outro autocarro. Rostos curiosos espreitam. É a outra banda. Trocas um sorriso, um aceno, um “’tá tudo?” com um conhecido do conservatório, de um estágio passado, ou dos “gansos”. Do outro lado a mesma azáfama. Apertam-se gravatas, abrem-se e fecham-se estojos, ouvem-se as primeiras notas.
“Vamos formar!” e, quando te apercebes, já estás a dar a volta à capelinha. Os festeiros alinham-se solenemente em frente à porta do templo. Nada disfarça o seu desconforto dentro do fato comprado propositadamente para a ocasião, ou para o casamento da prima.
“Vamos para o coreto e esperamos lá pela outra banda!”
Cumpridas as cortesias filarmónicas vem o trabalho a sério. Concerto toda a manhã, a procissão é de tarde. Finalmente despertas. Agora é que vai começar.
Meia dúzia de entusiastas já se perfila em frente aos coretos para o primeiro “round”.
O tempo passa até à hora de almoço. O sol já esquenta e aproveitas para aliviar a gravata. Juntas a malta porreira e procuras um tasco. A cerveja adorna as mesas, repletas de sorrisos, anedotas, graçolas e piropos às miúdas.
“Eix… temos mesmo que ir de novo?”. Tens. O estômago cheio pede uma sesta, mas tens que voltar… Com um bocado de sorte adormeces debruçado nos tímpanos, mas é uma sesta curta para aliviar o espírito. Vem aí a procissão e outro concerto.
No solene desfile religioso é difícil manter a concentração, tais são as tentações lançadas por Satanás, para perturbar o culto Divino.
Tens um código secreto com os companheiros das filas da frente e de trás para assinalar as presenças pecaminosas.
O calor está no seu pico e a sede também. Terminado cortejo, corres para qualquer sítio onde haja um líquido que te acalme a garganta. O pessoal da outra banda também lá está. “Olha o Quim! Ainda não te tinha visto hoje, pá! Como é que andas?”
A cortesia filarmónica continua. Tu pagas uma rodada, alguém paga a ti. O confronto fica guardado para cima do coreto.
“Meia-hora para lanchar e depois estamos aqui no palco para tocar até à hora de jantar.”
A meia-hora ainda dá para uma “suecada”, ou para descarregar a fúria numa mesa de matrecos.
Hora de jantar. Guardas a gravata no estojo e voltas ao tasco do almoço, onde o dono até já está à tua espera, com aquela garrafa que te prometeu.
A molenguisse do almoço dá lugar ao entusiasmo. O concerto da noite é sempre o mais espectacular.
Não tens o sol a fustigar-te. Até está calor, mas respira-se melhor. Até corre uma certa brisa que leva alguém a pedir que se toque em casaco.
Pelas ruas ornamentadas com luzes, desfilam fardas, estojos e transeuntes ansiosos pelo despique final. Ouve-se no coreto o puto que entrou este ano para a banda e não larga o instrumento, o percussionista a ensaiar brakes na bateria e o “artista” a exibir os exercícios de flexibilidade que aprendeu na marterclass com o “não-sei-das-quantas”. Está também a miúda que estuda desalmadamente para entrar em medicina.
O maestro levanta os braços e sentes que está na hora de dar tudo por tudo.
Não te dói nada, ou melhor, dói, mas o emblema que tens na lapela fala mais alto. O mundo não vai acabar, mas até podia. A suspensão final parecia interminável, mas não há melhor bálsamo do que as palmas.
Agora são os outros. Tocam muito bem, o que te dá mais “pica” para a obra seguinte. O resto do corpo pede descanso, mas o teu coração empurra-te para a frente. Ardem-te os lábios, os braços, as pernas, mas o Maestro pede mais e tu tens que dar.
Chega o fim. “A marcha lá fora vai ser o Trivial. Depois tocamos em conjunto o “Manuel Joaquim de Almeida”.
Agora sim, começas a aterrar, mas há ainda o último afago do público.
Enquanto estouram os últimos foguetes, despedes-te dos colegas da outra banda. Gravatas na mão, estojos ao ombro, uma bifana para o caminho, ar cansado e apressado… “Ganseiro.. não tocas nada, pá!” E trocam um abraço sincero. “Vais ao estágio?”, “Continuas no Conservatório este ano?”, “Onde vais tocar para a semana?”, “Outro dia estive com o Zé, perguntou por ti!”.
O mundo da música é assim, pequenino e andamos sempre aos encontrões uns aos outros.
Chega a hora de atirar o instrumento para a mala do autocarro. Não queres saber. Nos primeiros minutos da viagem, ainda acontece a descarga da adrenalina. Cânticos mais ou menos obscenos, gargalhadas, a praxe aos putos mais novos.
Aos poucos tudo adormece e, como por magia, dás por ti de novo na tua cama, a farda no chão e o estojo à espera de nova jornada filarmónica.»
E é isto! :) Palavras para quê? Quem corre por gosto não cansa, já diz o ditado. E frequentar uma banda filarmónica, mesmo com todos os senãos e contras, é, sem dúvida nenhuma, algo que me faz extremamente feliz. Mesmo muito feliz. De ficar com o coração aos pulos de tanta adrenalina misturada com alegria e satisfação.
Sinto-me dia após dia orgulhosa da "minha" banda e esforço-me bastante por dar o meu melhor contributo para sermos cada vez melhores =)
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