palavras e mais palavras

domingo, 26 de janeiro de 2014

Praxe

Não me costumo pronunciar acerca deste assunto. Simplesmente porque acho que há opiniões que devem ser dadas na altura certa e, de preferência sem levantar muito alarido. Não gosto.
Dados os acontecimentos recentes, dos seis alunos que faleceram na praia no Meco e do excesso, a meu ver, de informação dada pela nossa imprensa, achei que devia partilhar a minha experiência enquanto estudante universitária e, sobretudo, enquanto ser humano. 

Em 2012, após um ano a fazer voluntariado, entrei na UAlg. Não me esqueço nunca mais do dia em que saí da minha casa, deixei a minha mãe, larguei a minha zona de conforto e fui até ao Algarve, pronta para iniciar uma nova fase da minha vida. Cheia de expectativas e ao mesmo tempo com um certo medo e alguma ansiedade por tudo aquilo que me esperava pelo Sul. Fiquei a viver com o meu pai, o que me deu algum conforto. Mas era tudo novo na mesma e a adrenalina apoderava-se de mim.
No primeiro dia de aulas, cheguei à faculdade. Não conhecia absolutamente ninguém. Não sabia onde eram as salas, não sabia quem eram os meus colegas, nada! Estava nervosa. Só queria fugir dali e vir para "debaixo das saias da mamã". Mal entrei na escola, duas raparigas, talvez da minha idade, dirigiram-se a mim, perguntando-me se era caloira e de que curso era. Por sorte delas, azar o meu, eu estava no local certo, à hora certa. Era do curso de Ciências de Comunicação e elas seriam, nas próximas semanas, juntamente com mais uns quantos trajados, as minhas superiores, a quem eu teria de obedecer e respeitar sem quaisquer tipos de direitos. E assim foi. Ainda me lembro das primeiras palavras que me disseram: "Olhos no chão besta!!". Senti-me um bocado de nada! O meu coração ficava cada vez mais apertado. Só pensava que estava a detestar aquelas pessoas, aquela escola. Tudo! Nesse dia rastejei, rebolei, fui chamada de m****, besta, de NADA. Senti-me humilhada. Perdida num novo local, com pessoas que estavam a fazer tudo menos integrar-me. Chorei. Muito. 
Nesse dia, a minha saúda saiu lesada também. Andei coxa durante uma semana. 
Nesta altura fiquei totalmente anti-praxe. Achava que era uma estupidez estar naquela situação ainda mais vulnerável do que estar num mundo diferente e novo. Nunca mais pus os pés naquelas brincadeiras que diziam ser inofensivas, mas que me deixaram psicológica e fisicamente abatida. 
Frequentei o curso durante um ano, nunca fui desprezada pelos meus colegas, mas senti que havia sempre um certo distanciamento, uma vez que não tinha participado deste ritual. 

Passado esse ano, resolvi dar uma volta à minha vida. Mudei de curso. Entrei na FCSH, em Lisboa. 
No primeiro dia ia reticente. Já tinha tido uma experiência de praxe e não tinha sido muito feliz. Tinha medo de passar por tudo de novo. Não queria e estava decidida a não participar se de humilhação se tratasse. Porém, tive uma surpresa. Fui MUITO bem recebida. Bem tratada. Pude olhar nos olhos daqueles que seriam, nos messes seguintes, os meu colegas e amigos. Aqueles com quem ia partilhar dias bons e dias maus. Aqueles que passaram a fazer parte da minha vida. 
Aceitei ser praxada. Fiz muitas brincadeiras engraçadas. Dancei, cantei muito até ficar sem voz. Também sujei a cara de farinha e café, mas o que é isso ao pé de rebolar na lama ou olhar para o chão todo o dia? O que é isso comparado à humilhação de ser chamada de NADA? Não é mesmo nada. 
Naquela primeira semana senti-me feliz. Conheci toda a gente. Fiz amigos para a vida. Reecontrei pessoas que foram importantes para mim e fortaleci a minha relação com elas. E fui praxada! Praxada de verdade. Sem os disparates praticados em muitas universidades. Nunca me senti lesada nem desintegrada. Pelo contrário!

Hoje, prestes a vestir pela primeira vez o traje académico, sinto-me bem. Com muitas saudades daquelas primeiras semanas. Com vontade de voltar atrás e fazer tudo de novo. Sem problemas. Com ainda mais voz para gritar pelo nome do meu curso sem qualquer pudor. 

Após esta situação triste do dia 15 de Dezembro só tenho algumas palavras a dizer: 


Por experiência própria, posso afirmar que a praxe depende, E MUITO, de quem praxa. Há bons praxantes e maus praxantes! Há gente com sentimentos e gente fria, que só pensa em humilhar quem é mais frágil. Há boas praxes e más praxes!

Não adiante de nada acabar com uma coisa que une pessoas e cria fortes laços! É necessário, sim, mudar mentalidades e explicar aos abusadores e não praxantes que os caloiros são seres humanos, com sentimentos, necessidades e personalidades. São seres que precisam de se sentir bem na nova vida que iniciam e não serem tratados abaixo de ZERO.

E pronto. Tenho dito. 

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